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| (Arte Ricardo Weg - PT) |
No Jornal Nacional da TV Globo, o
noticiário mais assistido do Brasil, na terça-feira (15 de novembro) não houve
nenhuma referência aos 122 anos da Proclamação da República, razão do feriado
que multidões de brasileiros emendaram.
Quanta gente ficou
sabendo o motivo do feriado? Ouvi um taxista dizer que era o dia da Bandeira.
Que aproveitamento houve da data para chamar a atenção sobre os grandes temas
da democracia brasileira? Nenhum.
Se tivéssemos aqui
uma espécie de BBC, um conjunto de canais públicos de TV que se destacam na
Inglaterra por grande audiência e grande qualidade, certamente o nível da
cultura e da democracia brasileira seria maior. Não cabe interferir na
programação e no conteúdo da Globo, que apresenta programas de grande
qualidade, como a matéria no mesmo Jornal Nacional sobre a história do tráfico
de drogas nas favelas do Rio. Trata-se de ter uma concorrência à altura, de
qualidade, encarada pelo setor público, que tem vocação diferente do setor
privado. Jamais com a chatice da Voz do Brasil, não com a programação arrastada
da TV Brasil, nem com a grade ora infantil ora elitista da TV Cultura (que na
hora de um jogo da seleção brasileira apresenta algum debate no Café Filosófico
sobre o papel do riso). Os lobbies do setor privado da notícia sempre se
deliciaram com este tipo aborrecido de comunicação. E com os mirrados
orçamentos estatais para os canais públicos de TV.
A BBC surgiu, como
outras emissoras públicas na Europa, procurando cultivar cidadania, democracia,
arte, moral, ao tempo em que veiculavam informação, seja qual fosse o objetivo
ideológico- estratégico na primeira metade do século passado, marcado pela
disputa capitalismo-socialismo e pela disputa entre si dos países europeus. A
sua autonomia do governo sempre foi uma batalha, às vezes mais bem sucedida,
outras vezes menos.
Diferente foi o
caminho brasileiro onde o setor privado se impôs soberano no mundo da
televisão. As emissoras comerciais surgiram para arrecadar lucros, e, portanto
tratar sua audiência como consumidores, procurando incutir neles novas
necessidades materiais e os valores individualistas e consumistas. E
depois se descobriram como empresas donas de muito poder sobre a sociedade,
sobre o Governo, sobre o Congresso, sobre o Judiciário.
A democratização
dos meios de comunicação no Brasil significa universalizar e impulsionar a
imensa criatividade da cultura brasileira, atender à pluralidade do pensamento,
difundir as diferentes ideias políticas, buscar um equilíbrio objetivo no que é
informado e na maneira como o é.
No caso do feriado
da República, daria para ter colocado em cena o papel das Forças Armadas em
nossa história, já que a República foi uma transição por cima, um golpe militar
que derrubou o Império desgastado por vários motivos, entre eles, a abolição da
escravidão um ano antes. Daria para ter lembrado a revolta de Canudos, uma
confusão entre revolta social, religiosidade e monarquismo. Daria para lembrar
as eleições de presidente da República em que as mulheres e os analfabetos eram
proibidos de votar e então só uns 3% de brasileiros escolhiam o presidente.
Daria para ter lembrado as fases doloridas da República: República Velha,
ditadura Vargas, redemocratização, ditadura militar, transição do Colégio
Eleitoral, República atual, etc. Tem muitos filmes bons com passagens
sobre isso, tem muitos registros históricos (quadros, fotos, áudio-visuais),
tem bons debatedores, há muita polêmica.
Alguém dirá: mas já
temos as TVs educativas. Só que elas que surgiram como espécie de telecursos
nada atrativos, com sinal de diminuta potência, chamadas de educativas para
mostrar ao poder privado que não eram TVs completas. Apesar dos avanços
tecnológicos, um estranho fenômeno ainda é atual: a dura luta para ver com
nitidez as TVs públicas, que aparecem com qualidade de muitos anos atrás,
ofuscadas pela clareza, beleza e brilho das TVs privadas. Em São Paulo vejo uma
beleza de imagem e som nos canais abertos da Globo, SBT, Record, etc, e sofro
com a imagem e o som ruins da Cultura. Em Brasília, a mesma decepção com a TV
Brasil. A pobreza de periferia reservada para as TVs públicas não ocorre por
acaso. É caso pensado. É a arrogância do setor privado impondo-se à humildade
temerosa do setor público.
Se tivesse uma TV
pública com a mesma qualidade e audiência da Globo, na reunião de pauta do
Jornal Nacional no dia seguinte ao feriadão da República, alguém ia ter um
puxão de orelha. Não porque o governo tivesse interferido. Porque o público
brasileiro teria gostado da TV pública, e porque os anunciantes da TV privada
teriam reclamado da queda de audiência.
Estamos atrasados
em décadas com este sistema manco de comunicação. Temos que fortalecer o
sistema público para concorrer com o sistema privado. Vimos o quanto isso é
importante no setor bancário, para contrabalançar o poder da finança privada na
economia. E quando se trata do espírito, da informação que fundamenta opiniões
e ações? Precisamos de um país mais republicano do que este que temos.
Elói Pietá é
secretário-geral do Partido dos Trabalhadores
