Reproduzo artigo publicado no Jornal do Brasil, do dia 25/10/2011, vale a pena reproduzir.
Gilson caroni Filho
Os brasileiros, que tiveram de passar 20 anos lendo nas entrelinhas,
especulando a partir de meias palavras ou interpretando – procurando
interpretar – as rudes reações viscerais trazidas ao público por aqueles que
detinham o poder, têm hoje olhos e ouvidos apuradíssimos para entender o que há
por trás de cada episódio do cotidiano, por mais irrelevante que possa parecer
à primeira vista. É isso que o baronato midiático parece não ter entendido ao
continuar patrocinando atos que, a pretexto de combater a corrupção, têm como
objetivo esvaziar a política.
Os movimentos que saem da internet para ganhar as ruas, longe de serem a "primavera" com que sonham – ou fingem sonhar –
seus reais mentores, têm se mostrado um melancólico outono dos
tradicionais dispositivos de agenciamento midiático. Submersos na crise do
imobilismo de suas bases, resta à velha direita o consolo de platitudes publicadas
para justificar mais uma tentativa fracassada. O saldo de mais um
insucesso ora é debitado à boa situação da economia brasileira ora a
uma estranha lógica binária, como a apresentada pelo professor de ética e
filosofia política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine
Ribeiro, na edição de 13/05, de O Globo:
"O problema na luta contra a corrupção é que ela está
tomada pelos partidos. E é uma lástima que as pessoas usem isso contra o
partido oposto". Mas a que se refere o renomado acadêmico? A
característica do movimento não seria exatamente o seu reiterado
"caráter apartidário"? Ou, sem se dar conta, Janine revela o fato que
deveria permanecer oculto: o centro político da reação está agrupado
no campo jornalístico oligopolista que assume para si o papel de partido de
oposição.
O mesmo partido que deu sustentação a duas décadas de
ditadura militar. O mesmo agrupamento que silenciou as emoções
e expectativas da opinião pública durante os oito anos de desmando do
tucanato. Que editou a realidade para ocultar as preocupações da
população com o apagão, o descontrole cambial, a desnacionalização de partes
substanciosas da produção e serviços nacionais, os rigores de uma política econômica que duplicaram
as dívidas externas e internas e criaram seguidos déficits comerciais.
Desemprego,
congelamento ou irrisórios aumentos salariais, ao lado de escândalos
políticos e econômicos, pareciam fazer parte do cenário natural
para os mesmos colunistas militantes que agora se arvoram em
defensores de valores republicanos. Num conhecido jogo de
espelhos, a defesa incondicional dos ditames do mercado é trocada,
editorialmente, pela busca de posicionamento ético no trato da coisa pública. A
guinada é tão malfeita que não atrai o distinto público, como pudemos constatar
nas manifestações de quarta-feira, dia da padroeira oficial do
Brasil. No Rio de
Janeiro, os manifestantes chegaram a hostilizar os que preferiram olhar o mar a
ver a ressaca dos derrotados.
Para deixar claro qual o objetivo da TV Globo e de
seus sócios menores nessa simulação barata, vale a pena reproduzir o que
escreveu o ex-deputado Milton Temer (PSOL) em seu blog: "promover no
Brasil uma onda semelhante à que lamentavelmente varre povos de potências capitalistas,
que se reúnem em manifestações pontuais e conjunturais, mas que, pela abstenção
nos processos eleitorais, por justificado ceticismo, permitem à direita
mais reacionária manter o controle absoluto das instituições, ditas
republicanas, que realmente deliberam sobre seus destinos, através do modelo de
sociedade que desenham com suas leis e decisões dos poderes Executivo e Judiciário".
O brasileiro sabe que, sempre que uma esperança se frustra
(o que não é o caso do atual governo), vem a decepção e é preciso criar
alternativas. Sempre é preciso reconstruir caminhos, mas o que a grande
imprensa apresenta é um atalho para o precipício.
Gilson
Caroni Filho é sociólogo. - Gilson.filhobr@terra.com.br